O Brasil fulminou a espiral do silêncio e democratizou o debate político, mas é preciso progredir – por Felipe Nunes

A Espiral do Silêncio é uma teoria da comunicação idealizada na década de 1970 pela cientista política Elisabeth Noelle-Neumann. Na época, ela descobriu que os indivíduos da sociedade alemã demonstravam receio em emitir suas opiniões quando confrontados com um pensamento tido como ‘majoritário’ e super-valorizado pelos meios de comunicação de massa.

Em síntese, Neumann acreditava que, antes de emitir uma opinião sobre algum tema político, o público analisava o ambiente ao redor e preferia silenciar para não sofrer algum tipo de represália ou agressividade. Essa tese foi estudada por acadêmicos de todo o mundo e até hoje é debatida, especialmente em escolas de comunicação e jornalismo, embora existam outras nuances para explicar o fenômeno.

A Espiral do Silêncio, quando bem sucedida, provoca outro fenômeno, que é oposto: algumas pessoas passam a acreditar que todos devem aderir à sua cosmovisão, levando a um consenso que não existe, chamado de falso consenso. Esse fato foi analisado em todo o mundo através de reflexões e estudos que corroboram com a premissa de Neumann. No Brasil, tal fenômeno foi claramente percebido durante a repetição de sucessivos governos do mesmo partido na Presidência da República.

A oposição virou inimiga, a mídia foi criminalizada, a Justiça foi desacreditada, as instituições foram desvirtuadas e o pensamento divergente, aos poucos foi suprimido, levando a uma situação dramática de empobrecimento do debate público, criminalização da opinião e o surgimento de radicalismos de todos os lados. Como bem dizia o jornalista Wallter Lippman, autor da célebre obra Opinião Pública, ‘Quando todos pensam a mesma coisa, é porque ninguém está pensando’. Trata-se de um sintoma de um mau funcionamento do tecido social. Eis uma boa definição de como esteve nossa sociedade.

Mesmo fragilizada pela Espiral do Silêncio e pelo falso consenso, entretanto, uma maioria que se mantinha no canto da parede, viu a possibilidade de se expressar diante de um quadro crônico de crises econômica, social e moral, além de sucessivos escândalos de corrupção que se abateram sobre o país. A onda de grandes manifestações que se iniciaram em 2013 e se estenderam pelos anos seguintes, embora que em contextos distintos, solidificaram o novo ambiente público. O alcance cada vez maior das redes digitais ampliaram esse novo momento do país, contribuindo para a quebra do falso consenso.

O problema a ser vencido, hoje, não é mais a espiral do silêncio, mas os radicalismos produzidos por ela. De um lado, por parte daqueles que foram durante muito tempo silenciados. Do outro, por quem era acostumado a viver sem o contraditório. Vencido o falso consenso, é imprescindível que a sociedade brasileira busque o caminho do equilíbrio, mas esse objetivo só pode ser alcançado com a colaboração e a união dos sensatos.

 

Fonte: Polêmica Paraíba

Créditos: Polêmica Paraíba

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