OPINIÃO: contradições, a pandemia e as fake news que não incomodam

As notícias falsas se tornaram ao longo do último ano, sem dúvida alguma, um dos principais óbices no combate efetivo à pandemia do novo coronavírus em todo o mundo. Se por um lado as redes sociais propiciaram maior liberdade aos cidadãos, por outro facilitaram também o trabalho de quem dissemina a desinformação, muitas vezes com objetivos políticos, antiéticos e antirrepublicanos.

Para combater esse vírus paralelo, as empresas responsáveis pelas redes sociais e as conhecidas agências de checagens de notícias passaram a rotular publicações falsas e até remover conteúdos considerados enganosos. Recentemente, nem a conta oficial do Ministério da Saúde escapou da lupa do Twitter, que marcou como ‘enganosa’ uma publicação sobre o tratamento precoce, um tema que ainda não tem consenso na medicina.

Ocorre que no afã de combater as notícias falsas, artifícios digitais adotados pelas redes sociais se tornaram mais um cavalo de batalha ideológico do que propriamente uma ferramenta de combate às chamadas fake news. Parece que a preocupação maior não tem sido com a notícia falsa compartilhada, mas com quem compartilha o conteúdo inverídico e a quem ele prejudica.

Um exemplo disso é que enquanto canais ligados ao espectro político da direita têm sido retirados do ar diariamente – e com razão, muitas vezes, diga-se de passagem – as notícias sabidamente falsas e compartilhadas por perfis ligados a setores da esquerda têm passado ao largo do monitoramento e da crítica, mesmo quando espalham desinformação, o que é uma grande contradição.

Uma das primeiras notícias falsas nesse contexto, aliás, ocorreu em 12 de março de 2020, apenas um dia depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a existência de uma pandemia do novo coronavírus. Na época, o ex-candidato à Presidência da República, Guilherme Boulos, escreveu no Twitter que a ilha Cubana já havia produzido uma vacina contra o vírus e que o país havia exportado o produto para a China.

A informação logo foi comemorada pelos seguidores do socialista e compartilhada aos milhares.  Obviamente, o post era uma falsa notícia, fato reconhecido por ele, depois, em resposta tímida à mesma publicação. Chama a atenção, porém, que o post do ex-candidato continua ativo na rede social, quase um ano depois. Se ele não teve a decência de apagar, tampouco o Twitter o fez.

Se por um lado também há censura a publicações sobre medicamentos em fases de testes contra o coronavírus -principalmente quando são compartilhadas por autoridades públicas -, o mesmo não ocorre se a droga tiver a simpatia do outro lado da militância virtual.

Um episódio emblemático ocorreu em dia 24 de janeiro, quando Nicolas Maduro, o ditador da Venezuela, anunciou um antiviral com “gotas milagrosas” que seriam capazes de “neutralizar em 100% o coronavírus”. Ele compartilhou o assunto para o mundo, através do Twitter, e a publicação não sofreu nenhuma sanção, mesmo sendo falsa. É um ditador que censura seus cidadãos, frauda eleições, prende opositores e ainda têm o passe livre para mentir na web.

Dois pesos e duas medidas?

Não se deve condenar as ações das redes sociais que têm como objetivo tornar mais civilizado o ambiente virtual, mas o comportamento dúbio dessas plataformas nos faz questionar sobre o real sentido das políticas adotadas por essas gigantes do silício.

Basta fazer uma simples busca para encontrar dezenas de postagens agressivas e mentirosas que passam despercebidas, supostamente por não estarem em sítios do campo mais conservador. Um levantamento feito por este colunista, disponibilizado no fim do texto, traz alguns exemplos de uma série de xingamentos e até incitações ao crime. Contata-se daí a pouca ou nenhuma providência das redes sociais dependendo do perfil propagador das mensagens de ódio.

No final das contas, essa pandemia de contradições suscita um segundo debate: tão perigoso quanto o novo coronavírus e às informações falsas da direta e da esquerda, é o controle da informação das grandes empresas virtuais que, sob o pretexto de combate ao ódio, escolhem arbitrariamente aquilo que é publicado ou excluído e têm o condão de afirmar o que é falso ou verdadeiro. No caso do Brasil, a garantia constitucional da liberdade de expressão pode estar sendo seriamente ameaçada. E o direito ao crime, legalizado, mas apenas para um dos lados da história.